Duas editoras compartilham suas experiências no mercado internacional

21/07/2021

Em uma imensidão de palavras, textos e autores, que buscam público para suas ideias, não falta espaço para editoras de todos os portes levarem ao mundo os títulos produzidos no Brasil. A qualidade dos materiais produzidos é um pré-requisito tanto de quem procura publicar suas obras quanto de quem as lê. Mas não é só isso que diferencia uma boa editora, ter atenção às possibilidades de negócio no mercado internacional ampliam consideravelmente o alcance dos livros. 

Com títulos de temas diversos, as editoras Companhia das Letras e Jaguatirica, participantes do Brazilian Publishers —  projeto setorial de internacionalização do mercado do livro, realizado por meio de uma parceria entre a Câmara Brasileira do Livro (CBL) e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) — alcançam bons resultados lá fora e mostram que há procura entre o público estrangeiro pelos títulos brasileiros. Paula Cajaty, editora na Jaguatirica, e Elisa Izhaki, gerente de direitos autorais no Grupo Companhia das Letras, contam um pouco sobre a experiência das duas editoras com as publicações fora do Brasil.

Com mais de uma centena de obras distribuídas em cerca de 50 territórios, o Grupo Companhia das Letras já consolidou sua presença no mercado internacional e desde de 2011 conta com a expertise da Penguin Random House, o maior grupo editorial do mundo, que deste então, detém 45% das ações da brasileira. “Nós acreditamos que além de arrecadar mais leitores para as obras do Brasil, estar no mercado internacional faz com que se crie um maior leque de referências para autores de todo o mundo”, comenta Elisa, ciente do papel desempenhado pela editora com a exportação dos títulos nacionais.

Os cenários tipicamente brasileiros aliados a uma perspectiva única na escrita são bastante procurados pelas editoras estrangeiras, ainda que os temas abordados não sejam universais, como revela a gerente de direitos autorais. Entre os títulos bem sucedidos com o público internacional estão “O ar que me falta”, recém- lançado, e que já chegou a seis países, “Ideias para adiar o fim do mundo”, vendido em oito países e “Eleição dos bichos”, livro infantil que alcançou a marca de 18 publicações estrangeiras. 

Sobre as principais feiras para fechar negócios com editoras estrangeiras, Elisa lista as de Bolonha, Londres e Frankfurt que fluíram bem no modelo virtual adotados na última edição. “Com essa possibilidade das reuniões on-line, conseguimos aumentar a participação de outros funcionários da empresa – inclusive da equipe de direitos autorais – que não tinham oportunidade de estar nas feiras presenciais”, acrescenta Elisa, mas ressaltando que nada se compara ao encontro ao vivo para estreitar a relação pessoal, bastante importante no mercado editorial. Ela também pontua que participar do Brazilian Publishers  é outra maneira importante para a editora de ter uma atuação mais articulada e estratégica no mercado internacional, o que considera essencial no trabalho da venda de direitos.

Novos horizontes

A história de editoras mais novas também mostra um grande potencial da literatura brasileira no cenário global. Em 2012, a Jaguatirica surgiu como editora independente, acompanhando a procura do mercado por mais escritores. Cinco anos mais tarde, em 2017, surgia a Gato-Bravo, que tem parte da equipe em Lisboa, Portugal e divide os editores com a irmã brasileira. “Há muita demanda de autores por boas casas editoriais, que lhes auxiliem a ter a sua obra bem apresentada e com uma boa circulação entre leitores” comenta Paula, editora das duas casas. Hoje, a equipe editorial gerencia 620 produtos em circulação. 

Estar no exterior é primordial para as editoras menores também, “com a popularização da autopublicação, o papel da editora está cada vez mais relacionado com o marketing que ela é capaz de fazer, até mais do que pela capilaridade dos pontos de venda em que pode estar”, argumenta a editora. Entre os títulos que ela enxerga como preferidos do público estrangeiro estão os conteúdos juvenis e para jovens adultos, assim como os de ficção (romances) e não ficção (ensaios de conhecimentos gerais e conteúdos de desenvolvimento pessoal).

Com 5 títulos exportados para México e Egito, a casa já visa novos mercados. “Agora estamos buscando finalizar um contrato de 3 títulos a serem traduzidos para a Malásia, e também aguardamos o feedback de várias reuniões com editores turcos, iranianos, peruanos, espanhóis e chilenos”, conta Paula. O título de maior sucesso entre estrangeiros foi “O governador do sertão”, do romancista Anatole Jelihovschi, premiado no Brasil. A obra foi muito bem aceita pelos leitores mexicanos.

Assim como destacou Elisa, da Companhia das Letras, as feiras de Frankfurt e Londres são apontadas por Paula como bons canais de negócios, e ela ainda acrescenta a Feira de Bogotá à lista. A editora da Jaguatirica ainda destaca que o Brazilian Publishers cria a oportunidade de venda de títulos com seus espaços pré-estabelecidos em feiras internacionais e fellowships, além de promover com o gerenciamento de projetos, o encontro entre editores brasileiros  e os estrangeiros que desejam adquirir novos títulos. 

“Outro ponto positivo é a concessão dos apoios de tradução, que dão às editoras estrangeiras a confiabilidade em participar do programa, com o apoio financeiro à tradução da obra”, complementa. Entre os próximos lançamentos previstos estão “O ensino do futebol”, no Egito, e “Meu velho guerrilheiro”, no México.

Para quem também busca espaço no mercado editorial internacional, as duas entrevistadas trazem um pouco da experiência adquirida. “O principal é sempre a organização e a capacidade de participar de eventos realizados em outras línguas, principalmente inglês, espanhol e francês”, comenta Paula, que também adverte que organizar e traduzir o catálogo é um requisito básico para participar dos eventos com editoras estrangeiras. “Depois, ao longo do ano, criar os releases e excertos dos livros-candidatos, utilizando a lógica de traduzir primeiro os que têm mais potencial, e depois os que têm menos chances”, acrescenta.

Elisa também acredita que preparar um bom material sobre o livro é outro diferencial, com resumo, resenhas e indicação de obras afins. “E, se possível, com a tradução de um trecho para a análise das editoras estrangeiras. E as reuniões, agora on-line, também favorecem esse tipo de trabalho, porque os encontros são essenciais na hora de vender um livro para o exterior”, finaliza.

Sobre o Brazilian Publishers

Criado em 2008, o Brazilian Publishers é um projeto setorial de fomento às exportações de conteúdo editorial brasileiro, resultado da parceria entre a Câmara Brasileira do Livro (CBL) e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil). A iniciativa tem como propósito promover o setor editorial brasileiro no mercado global de maneira orientada e articulada, contribuindo para a profissionalização das editoras.