Em entrevista, tradutora de “O Avesso da Pele”, sucesso de Jeferson Tenório, fala sobre os desafios da adaptação para o inglês

16/08/2023

“O avesso da pele”, livro do escritor e pesquisador brasileiro Jeferson Tenório, conta a história de Pedro, que, após a morte do pai, assassinado numa desastrosa abordagem policial, sai em busca de resgatar o passado da família e refazer os caminhos paternos. Vencedora do Prêmio Jabuti de 2021 na categoria Romance Literário, a maior premiação literária brasileira, a obra chega agora aos Estados Unidos em edição da Charco Press, com previsão de lançamento em 2024.

Conversamos com Bruna Dantas Lobato, responsável pela tradução do livro, para saber mais sobre o projeto e descobrir os desafios envolvidos em sua adaptação para um novo idioma e público. Além de traduzir “O Avesso da Pele”, Bruna também é tradutora das obras “Suíte Tóquio”, de Giovana Madalosso; “Os dragões não conhecem o paraíso”, de Caio Fernando Abreu; e “E se eu fosse pu*a”, de Amara Moira, também com edições previstas para lançamento no próximo ano.

Leia, a seguir, a entrevista completa e descubra como foi a experiência da tradutora ao trabalhar com uma obra brasileira tão premiada e elogiada.

BP: O que a levou a escolher a profissão de tradução literária?

Bruna: Eu me encontrei na situação de imigrante quando me mudei para os Estados Unidos para estudar literatura na faculdade. Traduzir foi uma forma de pôr a minha vida brasileira e a minha vida americana em diálogo, e de me manter em contato com a língua portuguesa e o Brasil no geral. Foi através da tradução que encontrei a melhor forma de contar partes da minha história em inglês e também de narrar a minha vida nos Estados Unidos para a minha família no Brasil.

BP: Como aconteceu seu primeiro contato com a obra “O Avesso da Pele”?

Bruna: Uma amiga tradutora me apresentou ao livro assim que foi lançado no Brasil e lembro de ter me emocionado muito com o final. A forma que o Tenório retrata a violência policial contra a população negra no Brasil é amedrontadora e dolorosa. Os últimos capítulos, principalmente, me tocaram muito. Não hesitei quando fui contatada pela Charco Press alguns meses depois com a proposta de traduzir o romance.

BP: Quais foram os principais desafios que você enfrentou ao traduzir o livro? 

Bruna: O livro usa vários termos raciais e expressões racistas comuns no Brasil. Traduzi-los foi uma tarefa longa e muito delicada e tive que ter muito cuidado para não impor expectativas ou convenções americanas sobre o texto brasileiro. Minha intenção como tradutora nunca foi americanizar a vivência dos personagens do Tenório ou transformá-los em “African-American”, por exemplo, mas sim honrar o debate racial no Brasil. No final, depois de muita revisão, fiquei satisfeita de ter conseguido incorporar uma linguagem unicamente brasileira, mas que faz sentido em inglês.

BP: Como você equilibrou a fidelidade ao original com a necessidade de tornar o texto acessível aos leitores da língua de destino?

Bruna: Esse equilíbrio é uma parte essencial do meu trabalho. Às vezes a balança pesa mais para um lado ou para o outro, dependendo do momento e do sentido por trás da palavra, que esteja tentando honrar. Deixei alguns termos musicais brasileiros, por exemplo, em português do mesmo jeito que o título de um filme em francês continuou no francês. Já outros momentos que precisavam de mais contexto para o leitor da língua inglesa ganharam uma palavra adicional ou outra, por exemplo, a “São Silvestre” virou a “Corrida Internacional de São Silvestre”.

BP: Qual foi a parte mais gratificante do processo de tradução do livro? 

Bruna: Foi incrível seguir tão de perto a jornada interior do personagem principal, entender a fundo como ele chegou aonde chegou. O fim do livro me levou a lugares inesperados e profundos (sem spoilers), tanto do ponto de vista humano quanto em termos de técnicas narrativas. Eu não teria sido capaz de compreender e executar  as revelações do clímax sem ter acompanhado quem conta a história pelas ruas de Porto Alegre primeiro, sem ter traçado antes a psicologia complexa do livro e do seu narrador.

BP: Quais são seus próximos projetos na área de tradução literária?

Bruna: Tenho tentado traduzir mais autores contemporâneos do nordeste do Brasil. Sou nordestina com interesse ferrenho na região e estou sempre de olho para ver se encontro mais, mas mesmo assim raramente vejo autores como eu nos catálogos editoriais. Recentemente, traduzi o lindíssimo A palavra que resta, do Stênio Gardel, e estou no processo de traduzir Corpo desfeito, da brilhante Jarid Arraes. Espero que seja só o começo.