“Escrevi esse livro porque precisava trabalhar a frustração a respeito do que via ao meu redor”: em novo livro, Samir Machado de Machado homenageia clássicos da literatura policial

12/07/2023

O que aconteceria se Agatha Christie ou Arthur Conan Doyle ambientassem um de seus famosos romances policiais a bordo de um Zepelim alemão em viagem ao Brasil durante a ascensão do nazismo? A resposta está em “O crime do bom nazista”, novo livro de Samir Machado de Machado. Na trama, um misterioso assassinato a bordo de uma aeronave que parte de Berlim para Recife coloca uma baronesa, um médico e um crítico de arte como os principais suspeitos pela morte de um judeu homossexual e comunista.

A nova obra chega cinco anos depois da publicação de “Tupinilândia”, livro publicado em 2018 pela Todavia e vencedor do Prêmio Jabuti 2021 na categoria Livro Brasileiro Publicado no Exterior. A premiação reconheceu a edição da editora francesa Métailié.

Conversamos com o autor a respeito de seu processo criativo e como a recente história brasileira serviu de inspiração para a criação de um romance que nos coloca cercados por nazistas em um espaço confinado. Confira:

BP: O que o inspirou a escrever um livro que mistura elementos de clássicos da literatura policial com a história da ascensão do Terceiro Reich?

Samir: Sempre quis escrever algo ambientado a bordo do Zepelim, e quando surgiu a intenção de criar uma história policial nos moldes de Agatha Christie, o Zepelim me pareceu a ambientação natural para um crime. Como ele só fez voos entre Brasil e Europa durante um período da década de 1930, isso me dava uma janela de tempo histórico bastante específica, e que infelizmente, dialogava com o momento atual.

BP: Como você abordou a tarefa desafiadora de criar uma trama que envolve baronesas misteriosas, espiões comunistas e a realidade histórica da época?

Samir: Quando se está isolado em casa devido à pandemia, num país sendo governado pela extrema-direita, com Bolsonaro incitando ódio a minorias, seus aliados repetindo discursos de Goebbels, seus partidários organizados em clubes de tiros alimentando paranoias anticomunistas tal e qual a juventude hitlerista, escrever um enredo sobre pessoas isoladas em meio a ascensão nazista não é tão difícil quanto parece.

BP: Qual foi o processo de pesquisa que você realizou para retratar com precisão a época retratada na história? Você pode nos contar um pouco sobre as fontes que utilizou e como elas influenciaram a construção da história?

Samir: Sobre o Zepelim em si, havia muita coisa disponível online, o desafio foi descobrir quais imagens e informações correspondiam ao modelo correto de dirigível, já que houve vários. Sobre a vida LGBT durante a República de Weimar, dois livros de não-ficção que me ajudaram bastante foram “Sex and the Weimar Republic : German homossexual emancipation and the rise of the Nazis”, de Laurie Marhoefer, e “The seduction of youth : print culture and homosexual rights in the Weimar Republic”, de Javier Samper Vendrell. Da ficção, me inspirei um pouco em Agatha Christie e Conan Doyle, claro, mas também temas e elementos de A Ordem do Dia, de Eric Vuillard, e O Templo, de Stephen Spender, além de alguns aspectos de As Incríveis Aventuras de Kavalier e Clay, de Michael Chabon.

BP: Ao abordar temas sensíveis como a perseguição nazista aos gays, qual foi a sua abordagem para retratar esses eventos históricos de maneira respeitosa e sensível? 

Samir: Não existem temas sensíveis na literatura de ficção, cabe ao leitor resolver-se com quais temas consegue ou não lidar. Assim como não há nada sensível na abordagem do tema da perseguição a homossexuais, quando exatamente o mesmo discurso de quase cem anos atrás feito por nazistas é repetido por agentes do governo de seu país, como foi o caso durante o governo Bolsonaro.

BP: Como você vê a importância de trazer à tona eventos históricos e questões sociais através da ficção?

Samir: Escrevi esse livro porque precisava trabalhar a frustração a respeito do que via ao meu redor de algum modo, na ficção. E esse modo foi escrever uma história sobre estar cercado de nazistas sem ter para onde escapar. Nesse sentido, foi uma forma pessoal de lidar com o assunto, que felizmente encontrou eco nos leitores. Em particular no que tange à história LGBTQI+, jogar luz sobre esses pequenos momentos históricos pouco lembrados é sempre uma forma de reafirmar nossa contínua existência e as contínuas tentativas de apagamento desta existência.

BP: Como você vê o papel da ficção na preservação da memória histórica e na educação das gerações futuras?

Samir: Existe um aspecto muito específico na ficção, em termos de registro histórico, que é explorar o universo interior do personagem e seus sentimentos em relação ao mundo, algo que nem sempre a história se preocupou em registrar. Claro, no caso da ficção histórica, é preciso levar em conta o que tem a dizer tanto ou mais sobre o momento histórico em que é escrita, do que aquele que ela retrata.

BP: Quais são seus próximos projetos literários? Você planeja continuar explorando temas históricos em suas obras futuras ou gostaria de se aventurar por outros gêneros ou temas?

Samir: Uma vantagem do romance histórico é que ele me permite, justamente, me aventurar por outros gêneros e temas, usando a moldura histórica como forma de dialogar com o presente. Tenho algumas ideias em desenvolvimento, mas por enquanto, é cedo ainda para falar delas.