Escritores brasileiros celebram o Dia Mundial da Língua Portuguesa

03/05/2021

No dia 05 de maio é celebrado o Dia Mundial da Língua Portuguesa, e a data foi reconhecida internacionalmente pela UNESCO em 2020. De acordo com Francis Manzoni, coordenador geral da Comissão para Promoção de Conteúdo em Língua Portuguesa (CPCLP) da Câmara Brasileira do Livro (CBL), o reconhecimento “representa uma conquista da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) em parceria com o Camões, Instituto da Cooperação e da Língua”.

A CPLP foi criada em 1996 com base na herança da língua e de suas relações históricas e, atualmente, é formada por Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné Bissau, Guiné Equatorial, Portugal, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. E para refletir sobre o significado e a importância do idioma falado em tantos países pelo mundo, a CPCLP convidou algumas personalidades brasileiras para escreverem um depoimento sobre a língua portuguesa e sobre a data que comemora o idioma.

“A partir dessa iniciativa, a CPCLP procura afirmar-se como espaço de observação, de análise e pensamento sobre a promoção da Língua Portuguesa. Estamos certos de que essas reflexões permitirão um passo adiante, alguma iluminação e certo otimismo que ainda guardamos”, complementa Manzoni.

Confira os depoimentos abaixo.

Itamar Vieira Júnior – escritor

“Comunicar-se não é atribuição apenas dos humanos, mas parece ser uma intenção e uma atividade de todas as espécies vivas: dos animais às plantas, todos têm seus códigos de comunicação. O canto do pássaro transmite emoções e necessidades, e as raízes das árvores também se expressam umas às outras através de suas ramificações no interior da terra. Nós, humanos, temos muitas possibilidades de nos comunicar: seja pelos gestos, pelo olhar, seja pelo movimento, pela intensidade da respiração, além dos sons que somos capazes de emitir e, sobretudo, pela capacidade de vocalizar tais sons de maneira coordenada e disciplinada, criando e disseminando o que chamamos de língua.

A Língua Portuguesa, distante de sua origem na Península Ibérica, foi disseminada por outros continentes pelos violentos processos de colonização do passado. Para que ela prevalecesse no domínio das conquistas humanas, muitas outras línguas tiveram que morrer. E ela foi se transformando, ganhando palavras de diversas origens, como as que pertenciam aos vocabulários das línguas originárias. Por estar – e ser – viva também ganhou sotaques e melodias próprios, densidade e humanidade em cada fração de terra onde é falada. Foi se transformando porque cada falante imprime na alma da língua um pouco de si, tornando-a, assim, ao longo dos séculos, a sua língua materna. Foi com ela que aprendemos a expressar nossas emoções, a nomear sentimentos. Criamos palavras para a perda e a conquista, para a vida e a morte; ressignificamos outras de acordo com nossas necessidades e assim a língua segue transformando a si e a todos.

Hoje somos mais de 250 milhões de pessoas em quatro continentes a sonhar, viver e se expressar na Língua Portuguesa. Se ela ampliou a nossa capacidade de comunicação além das nossas fronteiras, foi porque nossos ancestrais fizeram desse idioma de mais de 800 anos a sua própria língua. Se foi nela que aprendemos a amar, é nela que nos renovamos à espera de um futuro.

Cidinha da Silva – escritora

Na condição de escritora brasileira, poderia dizer que a língua portuguesa é “matéria prima” para a construção do texto literário, mas, de fato, ela configura mais do que isso. A palavra que nos nutre e permite criar mundos e ampliar os sentidos do mundo existente está mais próxima da água que flui, fertiliza, faz brotar e florescer. É isso, procuro trabalhar com a palavra explorando-a na potencialidade das águas. Este é seu sentido maior para mim.

Gilvan Müller de Oliveira – professor e ex-diretor executivo do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP)

Nasci e vivi até os 9 anos de idade no ou ao redor de um pequeno hotel em Santa Maria, na época importante nó ferroviário no centro do Rio Grande do Sul, o Hotel Glória, na Avenida Rio Branco. Do burburinho da chegada dos trens vinha a maioria dos hóspedes, mas a estrada de ferro foi entrando em decadência quando eu ainda não tinha chegado à idade adulta.

Ambos os nomes remetiam muito à brasilidade, ao grande hotel da capital da República, o Rio de Janeiro, ao diplomata-herói que consolidou as fronteiras do Brasil. Lá começou a minha experiência como criança monolíngue em português. A família, a televisão preto-e-branco com filmes de caubói, a escola, todos me falavam em português.

Uma das primeiras impressões que tenho, porém, era de momentos em que os meus avós se afastavam para um canto do escritório, ou da sala de costura do Hotel, e falavam outra língua em tom muito baixo. Eu ouvia que era algo diferente, que eu não entendia, não sabia o que era, e sentia que não era para perguntar. Essa língua só aparecia em público em alguns fins de semana, quando viajávamos de carro uns 60 km para a colônia.

Lá, em Restinga Seca, Várzea do Meio ou Agudo, entre os irmãos do meu avô e as suas famílias, ou na casa dos pais da minha avó, que nós chamávamos de Opapa e Omama, a língua era falada num volume normal. Foi lá que vi o Opapa falando em alemão com as galinhas pela primeira vez. A colônia, sempre verde, era a zona rural das regiões de colonização alemã e italiana no sul do país ou da imigração em geral.

Voltando à cidade, o alemão desaparecia e tudo se passava em português, eram palcos diferentes em que diferentes línguas eram encenadas. Eu só participava de um desses palcos.

Já os italianos eram chamados de gringos, só eles levavam esse apelido, e eu nunca ouvi a língua, que muitos certamente falavam no seu círculo familiar ou nas suas colônias, a Quarta Colônia, logo a leste da cidade, uma sequência de lugares com nomes como Val de Buia, Vale Vêneto, Palmas, Silveira Martins. Dos italianos eu só ouvia o sotaque em português, alguém comentava, esse é o sotaque dos gringos, na casa deles não podia entrar de sapatos, as tábuas do chão brilhavam muito, e se sabia que não havia passarinhos, porque eles comiam todos.

Os empregados do Hotel eram pessoas de muito baixa escolaridade, vários colocavam o dedão em um livro de presença, porque não sabiam assinar no nome, e em geral trabalhavam no hotel por muitos anos, até se aposentar, com o que crescíamos acompanhados por vários deles, que nos diziam e ensinavam coisas que nunca esquecemos.

O porteiro do dia era um deles, bebia muito, as suas mãos tremiam quando carregava as malas dos hóspedes dos táxis, dos autos de praça, como eram chamados, que estacionavam na frente do Hotel. Era ele que era chamado quando chegavam os castelhanos, nome indistinto usado para argentinos e uruguaios, não para hispânicos de outras nacionalidades. Quem falava com os castelhanos era o Ivo, que desenvolveu um portunhol útil que meus avós nunca tentaram, embora tenham encontrado tantos castelhanos nos 59 anos em que o Hotel pertenceu à nossa família.

Esses castelhanos criaram em mim uma grande curiosidade. Havia uma outra coisa, outra coisa depois de um rio, chamada Argentina, onde se falava diferente, eu não sabia que era uma outra língua.

Essa curiosidade era reforçada por uma médica, que vivia no último quarto do corredor do andar térreo, e que me trazia pequenos presentes da Argentina, onde ela tinha parentes e para onde viajava. Uma vez me trouxe um canudo de plástico com balinhas coloridas, fechado por uma cabeça de Mickey. Depois de comer as balinhas, esse canudo virou a minha zarabatana, bolinhas de cinamomo eram a minha munição. Que lugar era esse, afinal, em que falavam outra língua e onde havia balinhas que não existiam no Brasil?

Essa médica e vários outros adultos, em geral solteiros, sozinhos, moravam no Hotel, meu avô tinha assim uma espécie de renda fixa e um deles era um senhor judeu que tinha muitos livros no quarto, eu via pela porta entreaberta, chamado Seu Arão. Uma vez seu Arão deu um livro ao meu pai, e vi que na última página, aquela em branco, havia umas letras diferentes das que eu conhecia dos meus livros infantis em português, que eu decorava de tanto ouvir a leitura da minha mãe em voz alta, bem antes de ser alfabetizado. Eram só três linhas, que eu voltava a olhar de vez em quando, cheguei a tentar copiá-las algumas vezes, mas nunca perguntei nada ao Seu Arão, talvez tivesse aprendido que sobre línguas a gente não pergunta.

E havia os bugres, andavam nos acostamentos das estradas, em geral carregando sacos, pareciam mendigos ou caminhantes. Meu avô me mostrava quando passávamos de carro, apontava e dizia – “Lá vai um bugre…”, mas nunca ouvi a língua deles, eles não eram hóspedes do nosso hotel. Para mim a sua imagem estava associada ao silêncio. Falariam guarani ou kaingáng? Essas palavras só aprendi quando já tinha uns 16 anos, quando também aprendi que os bugres eram indígenas, e mais tarde aprendi que bugre era uma palavra depreciativa que se usava para nomeá-los.

Muitas décadas depois, como diretor executivo do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, situado nas ilhas de Cabo Verde, organizei um Colóquio em Luanda sobre o português nas organizações internacionais, onde fizemos muitos discursos grandiloquentes sobre a língua, a sua promoção, a sua potência, o seu futuro.

Nessa ocasião, chamou a atenção de todos uma fala diferente, de um senhor que disse que a ideia de promoção de uma língua era muito estranha para ele, que para ele, ao contrário, a coisa era muito mais simples: – eu falo a língua dos outros, assim eles me conhecem e ficam com vontade de aprender a minha língua, de saber mais de mim e do meu mundo. Não à toa, esse senhor era tradutor chefe do Escritório das Nações Unidas de Nairóbi, no Quênia, seu nome era Moos Lenga, tradutores são essas pessoas que não conseguem pensar sobre uma língua sem pensar em outra.

Mais tarde na minha vida aprendi outras línguas, mas o português foi um longo e espesso fio condutor, que me levou a passear nas suas geografias e nas suas histórias próximas e distantes. Do Hotel, no entanto, sempre carreguei os ecos que em cada oportunidade não me deixam esquecer que a língua portuguesa, como eu, não está sozinha, mas acolhida no meio de outras, dos muitos outros sutis que nos espreitam com um sorriso nas muitas esquinas do nosso percurso.

Sobre a CPCLP

A Comissão para Promoção de Conteúdo em Língua Portuguesa é um órgão da Câmara Brasileira do Livro (CBL) formado por editores, professores e agentes culturais. Em atividade desde 2016, a comissão tem por objetivo estimular e fomentar ações de promoção da língua portuguesa, em diálogo com a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Em sua atuação, tem recebido apoio de importantes entidades culturais, universidades, órgãos governamentais, consulados e, sobretudo, pessoas que trabalham pela valorização desse idioma e tem nele sua profissão.