“Temos que encarar o autor”: Flora Thomson-DeVeaux, tradutora da maior obra de Machado de Assis, fala sobre desafios da adaptação

Flora Thomson-DeVeaux Machado de Assis
16/07/2020

Nas últimas semanas, o clássico “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, do escritor brasileiro Machado de Assis, recebeu uma enorme atenção de leitores falantes do inglês. Em apenas um dia após ganhar nova versão na língua, o livro ficou esgotado na Amazon americana. Em menos de dois meses, já está em sua quinta edição pela casa Penguin Random House. Uma das responsáveis por esse sucesso, e talvez a principal, é Flora Thomson-DeVeaux, a talentosa tradutora por trás da edição.

A norte-americana se formou na Princeton University estudando língua portuguesa, e foi em um intercâmbio pelo Rio de Janeiro, no Brasil, que encontrou um caminho cheio de oportunidades na profissão. Na internet, ficou conhecida pelo blog Questões Estrangeiras, onde relatava suas peripécias pela cidade, seu relacionamento com os locais e interessantes análises sobre a cultura popular brasileira dos anos 20, tema de sua pesquisa acadêmica.

Na faculdade, também, conheceu a obra de Machado de Assis e começou a estudar ainda mais o autor. “Acho que para qualquer pessoa que se propõe a estudar o Brasil, chega uma hora que tem que encarar o Machado”, diz Flora em conversa com o portal. Ao falar sobre o romance, originalmente publicado em 1881, ela se derrete: “Me pareceu absurdamente moderno, hilário, surpreendente a cada página. Não consegui conceber por que o autor não era mais conhecido.”

Também foi na faculdade que Thomson-DeVeaux se apaixonou pela tradução e se deparou com um livro do professor e crítico João Cezar de Castro Rocha, que descrevia o trabalho de Machado como “poética da emulação”. A partir daí, decidiu estudar ainda mais as obras do autor, principalmente suas traduções já existentes, e até corrigir alguns trechos para se adequar melhor à linguagem de Assis. “Foi uma experiência instigante, bem na véspera de eu entrar no programa de doutorado, e que me ajudou a definir meu projeto em torno de uma nova tradução de ‘Memórias Póstumas de Brás Cubas’”, a tradutora conta.

Foram cinco anos inteiros se dedicando ao projeto, que contou com um longo processo de pesquisa preparatória, tradução, análise e revisão. Flora revela que não foi nada fácil: “A prosa machadiana pode parecer pacata, na superfície – não tem os neologismos ou a oralidade coloquial que a gente tende a pensar como sendo mais ‘difíceis’ de traduzir – mas essa elegância esconde uma profunda ambiguidade, uma série de cascas de banana que só quem lê muito minuciosamente ou se vê obrigado a traduzir percebe.” A tradutora ainda conta sobre a dificuldade de traduzir algumas críticas sociais de Machado de Assis ao público internacional, que desconhece a história do Brasil — por isso, Flora insistiu em lançar uma edição anotada, com explicações sobre certas passagens.

Recepção calorosa

A norte-americana se diz impressionada com a recepção do livro, que voltou ao estoque da Amazon no último dia 15 de julho. “A procura pelo livro obviamente pegou a gente de surpresa. É muito gratificante ouvir as reações de todos os lados, até de brasileiros que foram atrás da tradução por causa das notas ou pela experiência de ler o livro em inglês”, Flora conta.

O livro pode ser adquirido aqui.

Memórias Póstumas de Brás Cubas

A obra é narrada pelo falecido Brás Cubas, filho abastado da família Cubas, que resolve contar os casos de sua vida direto do túmulo. Em meio de várias críticas sociais, Machado expõe de forma irônica os privilégios da elite da época.

O livro é considerado como protagonista da transição do romantismo para o realismo, e mistura refinamento com uma pitada de humor. Por suas várias adaptações, incluindo no cinema, “Memórias Póstumas de Brás Cubas” ganhou fãs que vão de Susan Sontag a Woody Allen.

Mais sobre Machado

Nascido em 1839, no Rio de Janeiro, Joaquim Maria Machado de Assis, é considerado por muitos intelectuais como um dos maiores nomes da literatura brasileira. Machado escreveu em vida 10 romances, duzentos contos, dez peças teatrais, cinco coletâneas de poemas e sonetos, e mais de seiscentas crônicas. Entre seus romances, destacam-se as obras “Quincas Borba”, “Dom Casmurro” e “Helena”.

O trabalho de Machado influenciou nomes brasileiros como Lima Barreto, Carlos Drummond de Andrade e Olavo Bilac. Além de prestigiado pela crítica, é referência para autores como Philip Roth.