“Nem a década de 1980 durou tanto quanto a nostalgia que se tem por ela”: Samir Machado de Machado fala sobre suas inspirações para escrever Tupinilândia

19/01/2022

Referências pop dos anos de 1980, quadrinhos, filmes de aventura, colonialismo e brasilidades. O resultado desse verdadeiro caldeirão de referências é o sucesso de vendas de “Tupinilândia”, publicado no Brasil em 2018 pela editora Todavia. A obra é do escritor, editor e designer gráfico gaúcho,  Samir Machado de Machado.

O livro teve os direitos autorais comprados pela editora francesa Métailié e venceu o Prêmio Jabuti 2021 na categoria Livro Brasileiro Publicado no Exterior, promovida pelo Brazilian Publishers projeto de internacionalização de conteúdo editorial brasileiro realizado por meio de uma parceria entre a Câmara Brasileira do Livro (CBL) e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil). Em entrevista ao site do Programa, Samir contou um pouco sobre a salada mista de referências que o inspiraram e a premiada edição francesa.

No título, o autor explora temáticas como o nacionalismo, memória e nostalgia. A obra se passa na década de 1980, no coração da selva amazônica, e gira em torno de uma cidade e um parque de diversões, ambas com o mesmo nome do livro. A história é cheia de elementos fantásticos e referências da realidade brasileira.

Samir diz que duas vontades o inspiraram a escrever o romance, a de narrar uma aventura sobre uma cidade perdida e a de refletir a respeito da cultura pop dos anos 1980 sob a ótica brasileira um país em crise econômica e sem democracia, sendo bombardeado pelos valores da cultura de consumo norte-americana.

“Também foi uma forma antropofágica de lidar com minhas obsessões de juventude: filmes do Spielberg, livros do Michael Crichton, quadrinhos de Carl Barks, e as ideias, ora ingênuas, ora equivocadas, que se tinha nos anos de 1980 do que seria o futuro. É também uma maneira de exorcizar minha própria fixação com essa época. Costumo dizer que nem a década de 1980 durou tanto quanto a nostalgia que se tem por ela”, explica Samir.

Romance de aventura é um gênero de interesse universal, o que torna a obra atrativa para o mercado internacional e para os leitores europeus. O livro funciona como uma coleção de memorabília da cultura brasileira do século 20, sem esquecer questões presentes no país, como a tendência ao autoritarismo, a relação autodestrutiva com a Amazônia e a habilidade da população de se adaptar às situações mais absurdas possíveis.

“O livro busca refletir sobre a essência colonialista presente na aventura, além do impacto progressista, e ao mesmo tempo nocivo, da colonização cultural que ocorre por parte da cultura de consumo norte-americana, um fenômeno também universal”, cita o autor.

“Tupinilândia” na França

Samir se sente honrado com a vitória da obra no Prêmio Jabuti e destaca o trabalho excepcional feito pela Métailié em relação à “Tupinilândia”, que repercutiu bem comercialmente na França. A editora tem décadas de experiência com obras brasileiras e é conhecida pela excelente qualidade em sua curadoria. Sobre o bom desempenho do romance no mercado externo, Machado espera que a publicação ajude o livro a encontrar um número cada vez maior de leitores, e que, por meio de sua obra, mais pessoas se interessem pela cultura e literatura brasileira.

Além disso, Samir se sente extremamente satisfeito em relação à parceria com a Métailié. “O trabalho foi maravilhoso até mesmo no poder de síntese na hora de promover o livro. O slogan referenciando Jurassik Park e George Orwell foi o tipo de coisa que me fez dizer ‘como que não pensamos nisso antes? Estava ali desde o começo!’”, brinca. O autor se refere a frase que encontra-se na capa da edição francesa: “Entre Orwell e Jurassic Park, um blockbuster literário”.

Samir também ficou satisfeito com a tradução para o francês. “O trabalho de Hubert Tézenas ficou excelente. Foi uma grande ideia o acréscimo de notas de rodapé, explicando coisas tão brasileiras, como o brigadeiro, xis coração, brizolistas e as referências ocultas às músicas de Jorge Ben Jor. Foi necessário um olhar estrangeiro para que eu percebesse sua especificidade”, conta o gaúcho.

Trajetória

Machado é formado em publicidade e propaganda pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e em criação literária pela mesma instituição. Em 2007, fundou sua própria editora, a “Não Editora”, na qual publicou obras como “O Professor de botânica” e “Quatro Soldados”. O autor venceu três vezes o Prêmio Açorianos de Literatura, na categoria Capa: em 2009, pelo livro “Raiva nos Raios de Sol”; em 2013, por “Monstros fora do Armário”, e em 2014, por “Quero ser Reginaldo Pujol Filho”. Todos os livros foram publicados pela Não Editora. Também ganhou, em 2017, a categoria Narrativa Longa do mesmo prêmio, pela obra “Homens Elegantes”, publicada pela Rocco.

Sobre o Brazilian Publishers

Criado em 2008, o Brazilian Publishers é um projeto setorial de fomento às exportações de conteúdo editorial brasileiro, resultado da parceria entre a Câmara Brasileira do Livro (CBL) e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil). A iniciativa tem como propósito promover o setor editorial brasileiro no mercado global de maneira orientada e articulada, contribuindo para a profissionalização das editoras.