Em entrevista exclusiva, Fabrício Corsaletti, ganhador do Livro do Ano do Prêmio Jabuti 2023, fala sobre o futuro e seu processo criativo

02/02/2024

“Às vezes alguns poemas vêm prontos ou quase prontos. Podem ser bons ou não. Eu não rejeito nada. Qualquer ideia, qualquer faísca de poesia eu boto no papel e guardo.” Quem descreve o processo de escrita é Fabrício Corsaletti, poeta e escritor brasileiro que no ano passado levou para casa a estatueta dourada do Prêmio Jabuti 2023, maior condecoração da literatura brasileira. 

Fabrício publicou seu primeiro livro, “Movediço”, em 2001. Nos anos seguintes, também lançou obras como “Zoo”, de 2005 e “Golpe de Ar”, publicada em 2009. Mas em 2023, ao ser reconhecido com o Prêmio Jabuti nas categorias de Melhor Livro de Poesia e Livro do Ano por sua obra mais recente, “Engenheiro Fantasma”, lançada pela Companhia das Letras em 2022, Corsaletti alcançou uma conquista inédita em sua carreira. Nos poemas do livro, o autor se imagina como Bob Dylan numa suposta temporada na Argentina. 

Além da estatueta dourada, Fabrício foi premiado também com uma participação na próxima edição da Feira do Livro de Frankfurt, uma das maiores do mundo, programada para acontecer entre os dias 16 e 20 de outubro de 2024. Essa experiência marcará um novo capítulo em sua carreira, permitindo que editores internacionais conheçam de perto sua notável produção literária. 

Em entrevista exclusiva, Corsaletti compartilha insights sobre seu processo criativo, a inspiração por trás de “Engenheiro Fantasma” e suas perspectivas futuras na escrita, que incluem dois novos livros. Confira.

BP: Como foi o processo de criação por trás de “Engenheiro Fantasma”? 

Fabrício – Como narro no “Prólogo” do livro, escrevi os 56 sonetos que compõem o “Engenheiro fantasma” ao longo de nove dias, em setembro de 2020, durante a pandemia. Provavelmente eu nunca teria escrito esse livro se não fossem os quase vinte anos que me dedico a ouvir, analisar e estudar as canções de Bob Dylan e se eu não tivesse passado seis meses em Buenos Aires em 2005, quando tinha 26 anos. Nesse sentido, a inspiração é a obra de Bob Dylan e a cidade de Buenos Aires, onde as cenas dos poemas são ambientadas.

BP: Houve algum momento específico ou experiência que impulsionou a concepção deste livro?

Fabrício – Sonhei que Bob Dylan havia se autoexilado em Buenos Aires no final do século XX e que durante essa temporada portenha havia escrito e publicado um livro de sonetos intitulado “200 Sonnets”. Os sonetos do meu livro são uma tentativa de escrever parte do livro de Dylan.

BP: Como você descreveria o estilo poético presente em “Engenheiro Fantasma”? 

Fabrício: Quem pode analisar meu trabalho são os leitores, os críticos. Não cabe a mim fazer isso. O que posso dizer é que foi a primeira vez que escrevi sonetos, a velha forma fixa italiana. Tentei fazer com que eles soassem atuais, fossem ágeis e cheios de viradas inesperadas de temas e tons, que é como vejo certas canções de Bob Dylan.

BP: De que forma receber o Prêmio Jabuti nas categorias de Poesia e Livro do Ano em 2023 impactou você como autor?

Fabrício: Fiquei surpreso e feliz com os prêmios. É um reconhecimento, e ser reconhecido é sempre bom. Além disso, prêmios criam interesse pelo livro premiado. Você finalmente é lido, o que é quase um milagre, e ser lido é o prêmio maior. Saber que o “Engenheiro” já está na segunda edição me deixa muito satisfeito.

BP: Pode compartilhar um pouco sobre seu processo criativo ao desenvolver poemas? Alguma rotina ou ritual que contribui para sua inspiração?

Fabrício: Escrevo quase todos os dias. Ou trabalho em poemas inacabados ou começo um poema novo. Tenho um arquivo cheio de poemas e sempre que posso fico algumas horas em cima dele, mexendo, tentando acertar o ritmo de um, melhorar uma imagem de outro etc. Às vezes alguns poemas vêm prontos ou quase prontos. Podem ser bons ou não. Eu não rejeito nada. Qualquer ideia, qualquer faísca de poesia eu boto no papel e guardo. Depois, com o tempo, vou vendo se presta ou não, se devo jogar fora ou publicar no próximo livro. Enfim, eu trabalho e trabalho e trabalho e, talvez por trabalhar bastante, de vez em quando as musas me dão uma força.

BP: Já está trabalhando em novos projetos? Existe algo que os leitores podem esperar do seu trabalho no futuro?

Fabrício: Estou fechando um terceiro livro de crônicas e um novo livro de poesia. Talvez ainda esse ano saia um novo livro de poesia infantil, que já está com a editora.

BP: Como você percebe a interação dos leitores com “Engenheiro Fantasma”? Houve alguma resposta ou feedback que o tenha impactado especialmente?

Fabrício: Algumas pessoas me disseram que consideram o “Engenheiro” meu melhor livro. Acho que concordo. Mas a verdade é que não me faz bem ficar muito atento às opiniões dos outros. No momento, estou trabalhando em outro livro. Então procuro me concentrar nele, no livro do presente. Não posso ficar tão ligado a um livro de três, quatro anos atrás. Caso contrário, isso atrapalharia minha escrita.

BP: Quais são suas expectativas para a Feira do Livro de Frankfurt deste ano? Há algo específico que você espera vivenciar ou conquistar durante o evento?

Fabrício: Nunca fui a Frankfurt. Então meu plano é simplesmente conhecer a feira e a cidade. Quem sabe entrar em contato com novos poetas. Com sorte, conseguir despertar o interesse de alguma editora estrangeira e ver o “Engenheiro fantasma” traduzido para outra língua.